“Senhor, por que razão hás de manifestar-te a nós e não ao mundo?” (Jo 14,22)
Dom Carlo Maria Viganò. Foto: ACI Prensa

Vários bispos e cardeais responderam à declaração de sábado, 25 de agosto, escrita pelo ex-Núncio Apostólico nos Estados Unidos, Carlo Maria Viganò, que pediu a renúncia do Papa Francisco e de vários prelados acusando-os de encobrir abusos do ex-cardeal e Arcebispo Emérito de Washington, Theodore McCarrick.

Em seu testemunho de mais de 10 páginas, o Arcebispo de 77 anos, que serviu como núncio nos Estados Unidos entre 2011 e 2016, escreveu que o Papa Bento XVI “teria imposto ao Cardeal McCarrick sanções similares às agora impostas pelo Papa Francisco” e que o próprio Viganò disse pessoalmente a Francisco em 2013.

Viganò assinala que foi ignorado por Francisco, que devolveu a McCarrick o ministério público e que lhe permitiu ser um “articulador para nomeações na Cúria e nos Estados Unidos”, como quando “o Papa substituiu o Cardeal Burke pelo Cardeal Wuerl e nomeou imediatamente Cupich (para a Congregação dos Bispos), depois de torná-lo Cardeal”.

Em uma declaração no domingo, 26 de agosto, o Arcebispo de Chicago, Cardeal Blase Cupich, afirmou que Viganò deve estar “confuso sobre a sequência destes acontecimentos”, pois foi nomeado para a Congregação dos Bispos em 7 de julho de 2016, antes de ser criado cardeal em 9 de outubro do mesmo ano.

Viganò também escreveu no seu testemunho que a nomeação de Cupich para Chicago e de Joseph Tobin como Arcebispo de Newark “foram orquestradas por McCarrick, Maradiaga (Arcebispo de Tegucigalpa, em Honduras) e Wuerl juntos, o primeiro deles, por um pacto malvado de abusos, e os ao menos por encobrimento de abusos os outros dois. Seus nomes não estavam entre os apresentados à Nunciatura para Chicago e Newark”.

Cupich considerou que estas palavras foram “surpreendentes”, pois ele só havia recebido “palavras de apoio e felicitações” por parte de Viganò sobre a sua nomeação para Chicago.

“Sobre o tema da minha nomeação para Chicago e sobre a questão das nomeações episcopais em geral, não sei quem me recomendou para a Arquidiocese de Chicago, mas sei que o Papa Francisco, assim como os seus antecessores, leva a sério a nomeação dos bispos como uma de suas principais responsabilidades”, acrescentou Cupich.

Viganò também acredita que Cupich está “cego pela sua ideologia pró-gay”, pois ele destacou que o principal assunto em relação à crise de abusos sexuais é o clericalismo e não a homossexualidade.

Cupich sublinhou que “em qualquer referência sobre este tema sempre foi baseado nas conclusões do estudo ‘Causas e Contexto’ de John Jay School of Criminal Justice, lançado em 2011, que assinala que ‘os dados clínicos não apoiam a hipótese de que os sacerdotes com identidade homossexual ou aqueles que têm um histórico de comportamento homossexual sejam significativamente mais propensos a abusar de crianças do que aqueles que têm uma orientação ou uma conduta heterossexual’”.

No final da sua declaração, Cupich pediu uma “investigação completa das diversas acusações do ex-núncio… antes de fazer qualquer avaliação sobre a sua credibilidade”.

Viganò também menciona duas vezes o Arcebispo de Newark, o Cardeal Joseph Tobin, sobre o qual diz que a sua nomeação para o seu cargo atual foi “orquestrada” por McCarrick, Maradiaga e Wuerl.

Em uma declaração divulgada em 27 de agosto, Tobin e a Arquidiocese de Newark expressaram “assombro, tristeza e consternação pelas diversos argumentos (de Viganò) que não podem ser compreendidos como algo que contribui para a cura das vítimas de abuso sexual”.

“Na verdade, os erros, as insinuações e a ideologia do medo do ‘testemunho’ (de Viganò) servem para fortalecer a nossa convicção de continuar determinados a proteger os jovens e vulneráveis de qualquer tipo de abuso”, indica o texto. “Junto com o Papa Francisco, confiamos que o escrutínio das acusações do ex-núncio possam nos ajudar a estabelecer a verdade”, acrescenta.

No domingo, 26 de agosto, no voo de regresso a Roma, o Santo Padre disse a respeito do testemunho de Viganò que não dirá “uma palavra sobre isso”, e incentivou os jornalistas e os fiéis católicos a estudá-lo a fim de que cada um tire as suas próprias conclusões.

Dom Roberto McElroy, Bispo de San Diego, também é mencionado por Viganò em seu testemunho. Disse que a sua nomeação foi “orquestrada de cima” pelo Cardeal Pietro Parolin, atual Secretário de Estado do Vaticano.

O ex-núncio também disse que McElroy sabia dos “abusos de McCarrick, como se pode deduzir de uma carta enviada a ele por Richard Sipe em 28 de julho de 2016”. Sipe foi um sacerdote e psicoterapeuta que participou em mais de 50 julgamentos, ajudando vítimas de abusos cometidos por sacerdotes.

Na segunda-feira, 27 de agosto, McElroy afirmou que o testemunho de Viganò é uma “distorção”, que não pretende transmitir “de forma exaustiva a verdade”.

McElroy assinalou que a “seleção ideológica dos bispos atacados, em seu claro esforço por reavivar ressentimentos antigos, e na sua omissão de qualquer referência das suas próprias e variadas participações em encobrimento de abusos sexuais, e mais profundamente em seu ódio ao Papa Francisco e seu ensinamento, o Arcebispo Viganò consistentemente subordina a busca da verdade ao seu partidarismo, a divisão e a distorção”.

“Como bispos, não podemos permitir que o caminho do partidarismo nos divida ou nos distraia da clara missão que Cristo nos chama neste momento”, acrescentou.

Por outro lado, a Arquidiocese de Washington D.C., liderada pelo Cardeal Donald Wuerl, emitiu uma declaração na qual reitera que Wuerl “categoricamente nega que qualquer dessas informações lhe foram comunicadas”, em relação às sanções contra McCarrick.

“O Arcebispo Viganò não forneceu nenhuma informação em nenhum momento ao Cardeal Wuerl sobre o suposto documento do Papa Bento XVIcom diretivas de algum tipo de Roma sobre o Arcebispo McCarrick”, assinala a Arquidiocese de Washington.

Do mesmo modo, sublinha a declaração, “o Arcebispo Viganò não incluiu em seu testemunho nenhuma prova confiável de que, de algum modo, tenha informado ao Cardeal Wuerl restrições impostas ao Cardeal McCarrick pelo Papa Bento XVI. De fato, o testemunho do Arcebispo Viganò diz que ele não fez isso”.

Em seu testemunho, Viganò escreveu que é “absolutamente impensável” que Dom Pietro Sambi, Núncio no momento que foram impostas as restrições a McCarrick, não tivesse informado a Wuerl a respeito.

O Papa Emérito Bento XVI e McCarrick, ambos mencionados no testemunho de Viganò, não se pronunciaram até o momento.

Embora Dom Charles Chaput não tenha sido mencionado diretamente no testemunho de Viganò, a Arquidiocese da Filadélfia liderada por ele, foi mencionada e o seu líder foi apresentado como contrário ao Papa Francisco e a McCarrick.

O porta-voz de Chaput assinalou que o Arcebispo da Filadélfia “desfrutou de servir com o Arcebispo Viganò quando era Núncio Apostólico nos Estados Unidos e considerou que o seu serviço estava marcado pela integridade com a Igreja”.

Entretanto, Chaput não comentou nada sobre o testemunho de Viganò “pois vai além da sua experiência pessoal”.

Vários críticos de Viganò questionaram a credibilidade do seu testemunho, advertindo sobre a participação de Viganò no caso do Arcebispo de St. Paul e Minneapolis, Dom John C. Nienstedt, acusado de encobrir diversos casos de abuso sexual em sua diocese e de más condutas sexuais com seus seminaristas.

Em 2016 publicaram um documento que acusava Viganò de ter suprimido uma investigação contra Niendtedt em 2014. O documento explicava, entre outras coisas, que o ex-núncio ordenou a destruição das evidências relacionadas a este caso.

Vários bispos não mencionados no testemunho também se pronunciaram sobre as acusações de Viganò, principalmente para pedir orações e transparência.

Dom Joseph Strickland, Bispo de Tyler, no estado do Texas, disse em uma declaração que, embora as acusações não tenham sido provadas, “como seu pastor, eu as considero críveis”.

Por isso, incentivou uma “investigação completa” e, embora não tenha o poder de exigi-la, “levantarei a minha voz de qualquer maneira para pedi-la e para que todos os que foram responsáveis assumam as consequências das suas ações até os níveis mais altos da Igreja”.

Dom David Konderla, Bispo de Tulsa, comentou em sua página no Facebook que se considera “abençoado porque foi o Arcebispo Viganò quem me ligou para dizer que tinham me nomeado o quarto Bispo de Tulsa”.

“As acusações que detalha são um bom começo para as investigações que devem ocorrer a fim de restaurar a santidade e a responsabilidade da liderança da Igreja”, disse. “Agora é o momento de multiplicar as nossas orações pela Igreja e pelas vítimas desses crimes. Arcanjo São Miguel, defendei-nos na batalha”, acrescentou.

Por outro lado, Dom Thomas Olmsted, Bispo de Phoenix, afirmou que conhece Viganò desde 1979 e que “sempre o vi e respeitei como um homem de verdade, fé e integridade”.

Depois de assinalar que não conhece pessoalmente as coisas que Viganò menciona em seu testemunho, Olmsted encorajou a serem “levadas seriamente em consideração por todos e que cada acusação seja completamente investigada. Muitos inocentes foram seriamente afetados por sacerdotes como o Arcebispo McCarrick. Quem quer que seja que tenha encoberto estes atos vergonhosos deve ser colocado diante da luz do dia”.

O Arcebispo de Detroit, Dom Allen Vigneron, comentou que os católicos “não têm nada a temer”, pois “a verdade nos fará livres”.

“Mesmo que as acusações de Viganò sejam confirmadas ou se prove que é mentira, a verdade que deve ver a luz nos mostrará o caminho certo para a purificação e para a reforma da Igreja”, indicou Vigneron.

“Devemos responder abandonando-nos aos seus desígnios (de Deus) para receber a graça que nos oferece neste momento e aceitá-la de bom grado e sem olhar o seu preço. Se respondermos com esperança, o Senhor nos levará a um novo lugar, onde poderemos mostrar o Evangelho com nova força e fortaleza”, concluiu Vigneron.

 

Por ACIDigital

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