Escolha cidadã: embalsamada na fé?

Conversa entre fiéis

Pe CARMINE PASCALE

Já no último mês, refletíamos sobre o fim do Ano do Laicato, agora ainda mais perto, e dizíamos que precisamos levar a reflexão adiante. Pensar a missão das leigas e dos leigos na Igreja impõe reconhecer o cuidado com o próprio fermento, que não pode estar ineficaz, mas precisa estar apto a promover o crescimento da massa! E os leigos são o fermento no mundo! Por isso, o “Ano” termina, mas a missão continua, e continua forte e urgente.

Muitas vezes observamos, aqui e nas meditações diárias em nossas comunidades, que a vocação laical é aquela que permite à Igreja atingir os mais diversos lugares, as mais diversas realidades, em especial realidades nas quais ela teria enorme dificuldade de entrar, se fôssemos depender apenas daqueles que foram ordenados ou chamados a algum tipo de vida consagrada. Já sabemos disso. No entanto, esta consciência leva uma enorme responsabilidade a cada um de nós: viver a unidade entre as vocações é essencial, a formação adequada a todos é fundamental, a oração não pode ser deixada só para alguns momentos, a Bíblia em nossas casas não pode jamais ser coberta de poeira, o Catecismo precisa ser conhecido, assimilado, transformado em vida! De outra feita, como agir no mundo e ser esse fermento a que fomos chamados? Como fazer frente aos desafios cada vez mais numerosos – e agressivos – enfrentados por toda parte?

“Neste ano, neste mês de outubro, temos um compromisso que chama a nossa razão e a nossa fé para o centro.”

Neste ano, neste mês de outubro, temos um compromisso que chama a nossa razão e a nossa fé para o centro. As eleições estão aí, e revelam, de maneira muito crua, as maiores necessidades da população, os inúmeros problemas que saltam aos olhos, e o absurdo de “uns contra os outros” que se instalou em nossa sociedade, de uns tempos pra cá. O joio da divisão foi penetrando de maneira implacável em nossas realidades, e a fundamental busca da união e do diálogo com as diferenças se perdeu. Mesmo entre os fiéis mais engajados, estamos vendo grupos radicalizados, sem que se promova verdadeira orientação, sem que se faça dialogar, de forma a garantir uma reflexão fecunda que ajude a escolher os candidatos, a definir, no quadro de opções que se apresentou, aquele ou aquela que acreditamos possa agir com equilíbrio, respeitar a religiosidade, que é marca de nosso povo, que integra um Estado laico, mas compõe uma população de fé, que luta no dia a dia com os olhos voltados para o Senhor.

Viver o período eleitoral de maneira frutuosa é estarmos atentos às propostas apresentadas, debatendo-as, apontando seus problemas e também, é claro, o que trazem de bom. Viver este período como convém é confrontar as ideias com os valores que carregamos, sabendo o que condiz e o que não condiz com a nossa fé. E isto não é misturar religião com política, mas é saber que a política está em nossa vida, e a nossa vida está embalsamada pela fé. Aqui está a nossa marca! Aqui está a nossa diferença na ação diária, bem lá, no meio do mundo, como cada leigo e leiga têm que estar! Assim, não nos esqueçamos de que nossas atitudes estão integradas ao cristão e à cristã, que somos o tempo todo, igualmente no campo político, e em particular neste momento de votação…

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Como muitos devem ter lido, inclusive em nosso Niterói Católico, a própria Igreja, em nosso Regional Leste I, na pessoa de seus Bispos, publicou um alerta nessa direção, trazendo para todos nós orientações importantes para este momento (leia aqui). Verifiquem! Pois o voto é um exercício da consciência, que somos periodicamente convocados a fazer, e isto quer dizer, lembremos, que deve ser realizado sem influências externas, sem nos deixarmos influenciar por “fake news”, passadas de maneira inescrupulosa por quem quer confundir ou ainda, de forma ingênua, por quem já foi confundido… de uma forma ou de outra, fazem mal… Além disso, tenhamos em mente que o voto que damos irá refletir, primeiramente, para nós próprios, quais os princípios e valores que, de fato, temos. Talvez ninguém mais fique sabendo, pois o voto é secreto, não precisamos revelar a ninguém… mas um voto que vá contra a consciência, que não procure expressar os valores cristãos que devemos carregar, irá nos deixar mal. Não tem cabimento um cristão que não esteja comprometido com a Palavra, que não busque o bem comum, que não defenda a vida, que não se preocupe com o irmão mais frágil. Isto é cristão falso! Assim, cuidado com o botão que será apertado na urna, antes ainda, cuidado com o que estará defendendo junto a esses que desejam ser eleitos, ou junto daqueles que lhes são opositores, mas falam, sem discernimento, em redes sociais e na mídia em geral, e nem mesmo conhecem os programas, nem mesmo acompanharam um só debate… não vamos ser “mais um” falando por falar, mas com prudência e responsabilidade levemos as pessoas a refletir e a entender a responsabilidade que carregam. Agora, depois, sempre! Porque não é ir lá apertar um botão, apenas, que irá fazer a diferença. A verdadeira transformação, que precisa ser para o bem, virá com a consciência de que o cidadão precisa agir dia a dia, acompanhando as políticas públicas, cobrando os projetos bons, questionando cada pensamento ou ação que não forem condizentes com seus valores. Não é buscar o bem de um, isto é buscar o bem de todos, é procurar ser o fermento na massa, a luz a iluminar também o campo da política, que nos influencia a todo instante, determinando o rumo de nossa sociedade.

Que Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, interceda por nossa nação e nos ensine a servir sempre, compromissados com o Filho, não necessariamente falando – o quanto ela não fez no silêncio? – mas certamente com fidelidade, na intimidade com Ele, em nossas casas e em cada lugar onde nossos pés nos levarem.

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